quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Eu sou o mensageiro

A menina que roubava livros foi a minha primeira leitura do autor Marcus Zusak. Eu fiquei completamente encantada com o livro e, como de costume, me envolvi com a história de cada personagem. Alguns meses depois eu tive a felicidade de ganhar outra obra de Zusak que, apesar de ter sido escrita anteriormente à “Menina”, não recebeu tanta repercussão quanto.
Em seis dias apenas, entre trabalho e faculdade, eu conheci toda a trajetória de Ed Kennedy e mais uma vez me envolvi. O livro transmite uma realidade tão intensa que parece estar acontecendo em tempo real. As palavras que o autor usa são comuns aos jovens e nós conseguimos conversar com ele.
O enredo de “Eu sou o mensageiro” é contado na primeira pessoa pelo personagem principal: Ed Kennedy, rapaz de 19 anos que fala da sua própria vida, de todo o seu fracasso e, sem se envergonhar disso, ele faz vários questionamentos sobre a importância da sua existência. Querendo ou não, Ed nos faz refletir sobre o que nós fazemos das nossas vidas. Alguém vai lembrar de alguma coisa que a gente fez?
Certamente Ed sempre será lembrado por todas as pessoas que foram beneficiadas depois que o narrador descobriu a sua missão: ajudar aos outros. Missão essa que foi determinada por um misterioso qualquer que confiou nele, mesmo conhecendo todo a sua trajetória de “derrota”, com uma mãe que o odeia por ele parecer com o pai (que faleceu à seis meses), uns amigos que são tão fracassados quanto ele, um amor não correspondido e um emprego que não lhe acrescenta em nada.
Ed Kennedy, com o “empurrãozinho” que teve, conseguiu melhorar de alguma forma a vida de muitas pessoas, incluindo a sua. Ele aprendeu como fazer e não vai parar por aí.


P.s.1: Se Ed conseguiu fazer tudo aquilo, qualquer outra pessoa pode fazer também. Sim. Ed não foi apenas o mensageiro, mais do que isso: ele é a mensagem.
P.s.2: Obrigada pelo presente meu amor!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Sanidade individualista

Uma poesia, só para matar minha vontade de postar no Blog depois da "reforma":

Quem vai falar aos loucos
da sandice que os cerca?
Quem vai abrir os olhos
de quem vê e nada enxerga?
Como estragar a alegria
de quem se contenta com pouco?
E como pedir em dobro
de quem não desfruta dela?
Abafem as vozes, porque no fundo
ninguém quer mesmo falar.
Afastem suas mãos ferozes
do alcance de quem teme se machucar.
Bebam suas próprias certezas
em taças de ouro, porque apenas
os tolos escolhem se enganar.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Escola filantrópica incentiva o estudo em horário integral


Acordar todos os dias bem cedinho e ir para a escola de segunda à sexta é uma rotina comum a qualquer estudante do ensino médio, da mesma forma acontece com os alunos do Colégio Técnico da Fundação José Carvalho, CTFJC, situada em Pojuca. O que diferencia-os dos outros está no decorrer do dia, quando, ao invés de irem para casa, eles continuam com suas atividades dentro da escola.
As aulas pela manhã começam às 07h40min e terminam às 12h45min, os alunos almoçam e às 14hrs o turno da tarde começa. Cada professor possui uma sala para que os alunos possam tirar dúvidas da disciplina, a biblioteca também continua disponível para estudos nesse turno. Fica a critério de cada um decidir se precisa ou não alongar o seu período na escola para estudar, independente disso, todos os dias esse apoio é oferecido a eles. Porém, quando se trata das aulas de reposição, ou aula das disciplinas Educação Física e Informática, que são realizadas à tarde, os estudantes têm a obrigação de participar.
“Normalmente, fico no colégio três ou quatro dias na semana, sendo que dois dias são obrigatórios.” Afirma Victória Cedraz, aluna do 2° ano. Para Luciane Almeida, hoje estudante de Jornalismo, ao mesmo tempo que era algo cansativo e estressante, ficar na escola pela tarde, era também prazeroso, pois o almoço em família, que já não existia, passou a ser compartilhado com os amigos.
Além da estrutura montada para os estudos, o CTFJC, também está equipado com quadra poliesportiva, piscina, campo de futebol, salão de jogos, pista de atletismo e uma paisagem belíssima que estimulam a vontade de estar na escola, mesmo que, para ter acesso a esses lugares, seja preciso o acompanhamento de um professor. “Há alguns meses comecei a praticar Tiro esportivo, na categoria Damas, por incentivo do meu professor de Educação Física, Jorge Cajazeira. Ganhei o bronze no campeonato baiano.” Afirma Victória Cedraz.
Ao ser questionado a respeito das vantagens que o estudo em horário integral proporciona Jorge Ubiratã, professor de História do colégio, afirma que com esses moldes há um maior aprofundamento das discussões sobre as disciplinas, oportunidade de desenvolvimento de Projetos interdisciplinares, melhor integração entre os professores, funcionários e alunos, aproximação maior entre corpo docente e discente, além da eliminação de dúvidas pendentes. Para ele há, sem dúvida, uma melhoria significativa no rendimento, no entanto, ela depende da disposição do aluno em comparecer às tardes e acompanhar as atividades que a escola proporciona no turno oposto.
O CTFJC foi fundado em 1975 na cidade de Pojuca, pelo engenheiro José Carvalho, dono Cia de Ferro Ligas da Bahia, FERBASA, que cresceu profissionalmente devido a bolsas de estudos que recebeu durante a juventude. Para ingressar nessa escola os alunos precisam fazer um teste de seleção e, caso perca em algum ano, tem que sair da instituição.



quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O cúmulo da busca por audiência

Sônia Abrão nunca foi referência de nada para mim, ela simplesmente apresentava um programa ruim em uma emissora ruim. Mas hoje, ao saber (com atraso de no mínimo 4 dias) da “entrevista” feita de surpresa e por telefone à Lindemberg, seqüestrador que dispensa apresentações, eu me senti realmente envergonhada e passei a tê-la como uma desumana.

Será possível que os responsáveis por esse programa, “A tarde é sua”, não tiveram noção do mal que eles estavam fazendo às vítimas, já que com essa atitude irresponsável contribuíram para o nervosismo do seqüestrador? O “repórter” Luiz Guerra que fez a entrevista até mentiu para Lindemberg dizendo que era um amigo da família... Além disso, o tempo que eles ficaram conversando no telefone atrapalhou o contato do negociador com o rapaz! aaaa façam-me um favor, isso lá é jornalismo?? Eu não estou aprendendo isso na academia!

Apesar de ser o mais desprezível, infelizmente esse não foi um caso isolado de busca por audiência à custa da tragédia. Praticamente todas as emissoras transformaram o episódio em uma série que lhe renderia público. Isso me lembrou muito o caso da “menina Isabela” que se tornou um show, com a mídia tentando desvendar o crime e apontar o assassino. É sempre assim, os meios de comunicação sugam ao máximo um fato de grande repercussão até que simplesmente esquece, e ficam em busca de uma nova notícia que lhe tragam mais audiência. Este é um ciclo que se renova a cada acontecimento fora do comum.

PS.:É claro que com essa crítica eu não estou tirando a responsabilidade do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) que agiu de forma despreparada, muito menos do próprio seqüestrador que me fez, por um momento, desejar que a pena de morte fosse uma realidade no Brasil.

Quem tiver interesse de ver a entrevista é só acessar: http://br.youtube.com/watch?v=Y3oTNzkxUQE

domingo, 14 de setembro de 2008

Show de vizinha

“Trabalhador é baleado e morto em tiroteio”, “Estudante é estuprada em universidade”. Eu vou vendo o noticiário e ficando estarrecida. Não que a violência seja novidade para mim. Sei bem que o Brasil é campeão nisso e que a nossa cidade (agora também é minha) vive um dos momentos mais violentos. Arrastão, tiroteio, seqüestro relâmpago, estupro. Parece que isso tudo virou coisa muito normal por aqui (ou será que sempre foi?). Aqui. É isso que me deixa maluca! Não é só em São Paulo, no Rio ou em qualquer outro lugar distante, é aqui, onde eu vivo agora. Vinda de uma cidade do interior (ai, que saudade da paz – comparada a Salvador – de minha Catu), cresci num lugar onde crimes de assassinatos e estupros não eram tão comuns. E como eu posso não sentir medo se, enquanto vejo o jornal na TV, escuto o apresentador dizer que o pai de três filhos, que voltava do trabalho, foi vítima de uma bala perdida e morto num lugar tão próximo a mim? Logo ali, no outro bairro, logo ali, no mercado onde eu faço compras, logo ali, na esquina. Logo ali, logo aqui. Ai, esse aqui me incomoda tanto! Sempre me senti segura ao andar pelas ruas da cidade de onde vim, mas agora penso duas vezes até mesmo para ir comprar o pão. Quando eu poderia imaginar, se não fosse em uma caçada jornalística e ganhando para isso, que eu poderia ficar bem no meio de um tiroteio? Quando eu poderia imaginar que ia morar num condomínio de onde saem as drogas de todo o bairro? Assusta. Apavora. A pessoa fica mesmo apreensiva ao sair para pegar um ônibus, desconfia da outra que corre apressada para não perdê-lo e até ensaia reações no caso de ser vítima de um assalto – como se isso adiantasse. Ela pede com mais veemência pela segurança da irmã que está indo para a faculdade, pela própria segurança. E ainda escuta uma amiga falar que já foi assaltada umas três vezes (no meu caso essa amiga é a Elis, minha companheira aqui do blog). “Meu Deus, e se fosse comigo?”. Não sei como reagiria a algo do tipo. Certa vez, um menino roubou o colar de uma amiga minha e eu corri em disparada atrás dele (de vestido, salto alto e tudo). Caímos em plena encruzilhada. Bem, eu não tive nada de heroína ao fazer isso. Na mesma semana, vi passar na TV que um turista havia sido atropelado e morto ao fazer a mesma coisa que eu. Então não, eu não saberia como reagir. Choraria? Gritaria? Prefiro não ser assaltada para descobrir. Além de mais grossa e menos solidária, porque já não abro a porta para quem vem pedir ajuda, me tornei uma medrosa de primeira. Tranco as portas, as janelas, a minha “cara”, e fico da varanda observando o show de vizinha que fui arrumar. Eu, hein, queria mesmo era me mudar daqui!

terça-feira, 15 de julho de 2008

Uma nova suíte a respeito do tema: Lei Seca

*Para começar devo explicar que o termo suíte, em jornalismo, significa a reportagem que explora um desdobramento de um fato que foi notícia. Tudo bem que isso aqui não se trata de uma reportagem, mas eu gosto de me aproximar dos termos da minha futura profissão. rsrs

A lei seca está fazendo o maior sucesso (da mesma forma que acontece com qualquer outro novo acontecimento que afete o país de alguma forma) e, por enquanto, a mídia está em cima, vasculhando e expondo tudo o que pode, mas o real motivo dessa veiculação é a busca por audiência, quando esse não for mais um tema de interesse público, "puft", acabou! Ninguém mais ouve falar. E sabe o que vai acontecer quando ninguém mais falar? A fiscalização se tornará mais precária de que já é, ou seja, voltaremos à estaca zero.

Quando não é essa fiscalização precária, nós temos uma corrupção inexplicável. Todos nós sabemos que isso, vergonhosamente, existe em larga escala e está em qualquer lugar inclusive nas blitz que estão ocorrendo em todo o país. Quantos “falsos profissionais” não devem estar abrindo mão da multa em troco de um trocado? (me perdoe o trocadilho) Imagine o quanto isso vai aumentar quando a lei deixar de ser notícia...

Esses foram os dois pontos mais pertinentes que eu destaquei de outra perspectiva e que devem servir de acréscimo ao texto anterior.

Ps.: Bom, eu escrevi um novo texto porque fui alertada por meu pai e por meu namorado a respeito de uma outra vertente da tão comentada lei seca. No principio, quando vi reportagens que declamavam os resultados aparentes da nova lei eu fiquei encantada e não parei para pensar nos prós e nos contras. Por isso reservei esse espaço para comentar um pouco do que absorvi após algumas conversas com essas duas pessoas que me fazem aprender.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Bons frutos os da Lei Seca...



Melhor do que salvar vidas é evitar que elas se envolvam em acidentes que possam deixá-las em risco (foi o que ouvi hoje da coord. SAMU/Niterói no JN), e, se para que esse resultado seja atingido é necessário radicalizar, que seja feito. Assim está funcionando a “Lei seca” que já traz bons resultados para o brasileiro. Só para se ter uma idéia, em Niterói, RJ, o número de atendimentos diários da SAMU caiu 47% desde a aplicação dessa lei (menos de 1 mês) e isso está acontecendo no país todo.
A Lei seca tolera zero de bebida alcoólica e o motorista que for pego desobedecendo-a, além de pagar R$ 955, vai perder a carteira de motorista por 12 meses.
Tudo bem que deve ser difícil para quem toma uma aqui, outra ali, não tomar nada, mas acredito que deve ser muito pior para quem morre, simplesmente porque alguém tomou uma aqui e outra ali!
Só esclarecendo, antes da lei seca era permitido tomar até 6 decigramas de álcool por litro de sangue (equivalente a dois copos de cerveja), medida que poderia ser constatada de imediato pelo bafômetro. Bom, eu posso apostar com quem quiser que eu ficaria bêbada com apenas um copo de cerveja. E então? Será que eu não seria um perigo dirigindo por aí (sim, eu já posso dirigir!!! êêê) após ter ingerido 6 decigramas de álcool por litro de sangue? E como ninguém vai adivinhar o quanto um ou outro pode beber é melhor que ninguém beba nada.

Ps.:Estou orgulhosa com os resultados!



terça-feira, 10 de junho de 2008

Apartamento 102

Esse foi um ensaio realizado para a disciplina de Oficina de Leitura e Escrita II. Nele eu conto como aconteceu um acidente sofrido por minha irmã e as suas consequências.

Minha vista estava embaçada, meus olhos custaram a se abrir. Em minhas mãos, um objeto que há quase duas semanas havia se tornado íntimo meu e que refletia minha imagem distorcidamente, transformando-me num ponto borrado que oscilava para frente e para trás, num vaivém de sono e cansaço. Seu peso, que devia ser não mais que dois quilos, nesse momento pareceu-me ter 20, e o contato das minhas mãos com ele era tão frio, que um rápido arrepio chegou a percorrer-me o corpo. Três horas da manhã e lá ia eu mais uma vez, a quarta apenas nessa madrugada, se não me engano, armada com uma aparadeira (objeto com um lado redondo e o outro mais estreito, utilizado nos hospitais para aparar a urina dos pacientes; geralmente é feito de material metálico), com os cabelos totalmente desalinhados e uma cara realmente assustadora, me arrastando por um quarto de hospital. Não, eu não estava doente. Na verdade, estava passando por um estágio forçado de enfermagem. Há onze dias atrás, minha irmã havia sofrido um acidente (uma história ao mesmo tempo cômica e triste, pelos estragos que causou, que vai ser contada mais adiante) e não podia nem mesmo andar. Como ela estava tomando muito soro, a urina era o único jeito para eliminá-lo e ela fazia isso de pelo menos 20 em 20 minutos. Eu, como sua acompanhante, tive que me encarregar de não dormir e atender ao seu “Quero fazer xixi”, a qualquer hora que fosse. Na verdade o meu turno era o da tarde, mas minha mãe precisou se deslocar para uma cidade próxima e eu tive que ficar essa noite no seu lugar. E que noite. Se eu dormi? Não, não consegui. Mas pelo menos pude parar para lembrar, num intervalo de uma urina e outra, o que tinha me levado até ali.

...

“Anne, ladrão!”. Foi só o que eu ouvi antes de ver a minha irmã entrar desesperada no quarto onde eu estava, bater a porta com força e pular da janela. “Pára!”, “Cuidado!”, “Não faça isso!”. Eu não tive pulso na hora, tamanha a rapidez da situação e o próprio medo que ela me fez sentir com o seu desespero. A minha reação foi pular também da janela, com um pouco mais de cautela – ganhei apenas mais um arranhão no joelho –, olhar como ela estava e sair que nem doida pelo prédio, gritando por socorro. Na verdade eu pulei na intenção de levantá-la do chão e depois sairmos correndo, mas quando vi que tinha sido grave, resolvi pedir ajuda. Branca, com os lábios cinza (claro que eu não me vi na hora, me disseram que era assim que eu estava), olhei para cima e avistei os “ladrões perigosos”: minha mãe e um de meus tios, que vieram nos fazer uma visita surpresa. Não sei o que deu na minha irmã naquela hora para fazer algo do tipo, eram só quatro da tarde e o único barulho “ameaçador” que ela ouviu foi o de uma chave dentro da fechadura. Só fiquei imaginando se foi sorte ou azar morarmos justamente no primeiro andar. Prefiro nem pensar no que poderia ter acontecido se morássemos no quinto, por exemplo, se ela teria a mesma coragem, ou o mesmo medo, porque foi por puro terror que ela pulou.
Como era de se esperar, não demorou para o lugar ficar cheio de gente, que se juntava querendo saber o que tinha acontecido – eu nem sabia que tinha tantos vizinhos – e soltar as frases nada apropriadas no momento: “Meu Deus, por que ela fez isso?”, “Imagina se é do décimo!”. E eu desesperada, tentando consolar a minha mãe, que estava se sentindo culpada, uma Nardoni, como ela mesma disse. Na época estava passando na televisão – constantemente, diga-se de passagem - o caso de uma menina que supostamente havia sido jogada do sexto andar pelo pai, Alexandre Nardoni. Obviamente, o caso de minha irmã nada tinha de semelhante a esse, fora a existência de uma janela, mas mãe é mãe e sempre tem a mania de pegar a culpa para si. “Meu Deus, eu quase mato as minhas duas filhas”. Eu não sabia se ria ou chorava de pena dela. Um abraço e um “deixa de bobagem, mãe”, foi só o que eu soube lhe oferecer. Mas pior que tentar consolá-la, foi provar para mim mesma que eu não tive culpa da queda da minha irmã. Porque sim, eu fiquei pensando que na hora da agonia poderia tê-la empurrado para pular logo em seguida e fugir dos “ladrões”, ou simplesmente me esbarrado sem querer. Culpa, ela disse que eu não tive, que se lembrava muito bem de ter pulado sozinha. Mas, independente disso, eu ainda não consegui esquecer a cena dela caindo, seu corpo batendo desajeitado no chão. Foi horrível!
Por sorte, o SAMU chegou quinze minutos após ser acionado e ela foi logo encaminhada para o hospital. Eu pensei que o atendimento seria imediato, que ela enfaixaria os pés e seria liberada logo em seguida. Me enganei. Aquilo ali estava pior que hospital público. Era gente sendo atendida no meio do corredor, umas tantas pessoas esperando sentadas e minha irmã deitada numa maca, também no meio do corredor de emergência. Vez ou outra, ela entrava numa sala para fazer raios x, que eu também fiz, já que também havia pulado da janela. Quando voltava, fazia um escândalo, gritava, pedia para ser medicada e eu sem ter onde colocar a cara de tanta vergonha. Eu até compreendi que a dor deveria estar sendo realmente insuportável, afinal ela estava com os dois pés quebrados, mas confesso que percebi um certo drama na sua cena. Conheço bem a minha irmã e sei o quanto ela é dengosa. Mas isso não vem ao caso. Naquele momento, tudo era válido, pelo menos assim poderiam ficar compadecidos e atendê-la logo. Como tinha trabalho da faculdade, não pude esperar para ver o resultado e voltei para casa. No dia seguinte, comentei com algumas pessoas o que havia acontecido e elas riram, o que eu aceitei passivamente, afinal a história tinha um certo fundo de humor: uma menina de vinte anos se joga desesperadamente da janela, em plena tarde, porque pensou que um ladrão estava invadindo sua casa. E o mais curioso: o ladrão tinha a chave. Confesso que me peguei rindo algumas vezes, contra minha vontade. Mas não achei graça nenhuma quando fui visitá-la no hospital e soube do resultado dos exames: fratura do calcânio (osso do calcanhar) e fratura exposta do pulso esquerdo. Quando entrei no quarto, a vi com as pernas enfaixadas, o braço esquerdo engessado e uma cara de dar dó. Acho que nunca senti amar tanto a minha irmã. E os dezesseis dias passados no hospital me fizeram comprovar isso.
Quando eu poderia imaginar que um dia estaria num leito de hospital, cuidando de minha irmã ainda jovem e agredindo minhas manias de limpeza? Porque eu sou uma pessoa extremamente chata, que acha que qualquer coisa pode estar infectada e que tem nojo de tudo. Entretanto, me vi durantes dias cuidando de minha irmã, pegando sua urina, lavando suas partes íntimas e passando tardes e tardes num hospital, o tipo de lugar mais nojento que existe - sempre lavando as mãos de minuto em minuto, era mais forte do que eu. Mas, para minha própria surpresa, minhas manias e eu eram o de menos naquele momento. Eu só queria saber de minha irmã. E minha vida passou então a resumir-se a faculdade pela manhã, hospital durante a tarde e casa durante a noite. Minha irmã recebia visita a todo instante, mas estar perto nessas horas faz sempre a gente acreditar que tudo pode ficar melhor. E era assim que eu pensava. Como era triste chegar ao hospital e encontrá-la deprimida, se sentindo uma inútil, como ela sempre falava , ver o rosto abatido de minha mãe e em casa presenciá-la chorando todos os dias. E eu também sentia uma enorme vontade de chorar, mas não podia, porque sabia que isso acabaria fragilizando ainda mais as duas. Procurava sempre esboçar um sorriso amarelo, falar alguma palavra de ânimo – embora a maioria delas não convencesse nem a mim mesma -, ou simplesmente fazer companhia, que nesse tipo de situação é importantíssima. Acho que esses foram os dezesseis dias mais arrastados da minha vida. Por fora eu tentava aparentar estar como sempre, mas por dentro estava um caco, sensível, triste.
Desde o segundo semestre do ano passado, eu e minha irmã – Keu, é esse o seu nome - nos mudamos do interior para Salvador, para que pudéssemos fazer faculdade. Nossos pais e irmão continuaram em Catu, a cidade onde crescemos, e então nós moramos sozinhas. Sempre brincamos de uma assustar a outra, fazendo um barulho, fingindo que vinha alguém, mas depois desse dia, resolvemos nunca mais brincar assim. Com o acidente, eu acabei ficando sozinha durante o tempo que ela estava no hospital. Tinha medo vez ou outra, ia logo ver se tinha alguém em casa quando escutava um barulho, mas difícil mesmo estava sendo ficar sem ela. Eu sempre gostei de ficar sozinha no meu canto, tratando de entender minhas próprias idéias, mas já estava enjoada de mim mesma. Minha irmã fazia uma falta imensa, não havia um dia sequer em que eu não pensasse nela e até quem me via no ponto de ônibus percebia que eu estava triste. Desde o dia 16 de abril - se não me engano-, as vezes em que eu ficava realmente feliz eram quando ia vê-la no hospital , até mesmo quando tinha que castigar minha escoliose e carregá-la no colo para tomar banho ou fazer qualquer outra coisa. Ficava pensando que a necessidade faz realmente a especialidade. Eu, uma pessoa que não tem o mínimo dom e muito menos paciência para cuidar de alguém, tive que aprender a fazer isso, ouvir sem reclamar as frases mal-humoradas de minha irmã e, o mais importante, entender que ser sozinho não é nada bom. Descobri de uma maneira muito triste como devemos dar valor às pessoas, pois em um simples instante elas já podem não estar ao nosso lado. E que os irmãos são sim importantes para nós, por mais que muitas vezes neguemos isso. Porém, o difícil de tudo aquilo não era estar aprendendo essa lição, que na verdade me acrescentou muito, mas ter que fingir para os outros e para mim mesma - sou muito cabeça dura e desconfiada e não me sinto à vontade para falar dos meus problemas com ninguém - que estava tudo bem. Afinal, talvez até estivesse. No fundo eu nunca me senti verdadeiramente feliz. Acho que apenas havia encontrado um bom motivo para chorar e afogar as mágoas. Mas naquele momento eu estava sem tempo para pensar nisso. Mais uma vez, minha irmã me chamou : “Anne, quero fazer xixi”.

sábado, 24 de maio de 2008

Intolerância

“Briga no trânsito em SP acaba com um
morto a tiro”

Essa foi a notícia que me acordou hoje pela manhã....na verdade eu já estava no trabalho quando a li, mas parecia ainda estar na cama. (sábado, manhã, muito cedo, trabalhando para as moscas)
Briga no trânsito! Morte! Jovem de 18 anos! Mãe que sonhou com um desastre. Essas foram as palavras que se repetiam insistentemente na minha cabeça e me deixavam cada vez mais assustada. A brutalidade em conjunto com a banalização da vida humana fizeram com que um homem, ao lado da sua picape Montana (provavelmente de ouro), matasse um jovem de 18 anos. Motivo? Uma colisão na traseira do seu carro, sem muitos danos.
Para começar, esse homem não deveria ter uma arma em seu carro, se ele tem é porque, a qualquer momento, outras pessoas podem morrer. Será que podemos jogar a culpa desse armamento na legalização do porte de armas decidido por um referendo em 2005? Em outros tempos eu diria que sim, porém, hoje eu entendo que a ilegalização do mesmo não alteraria muita coisa, visto que é relativamente fácil possuir armas ilegais devido a uma fiscalização totalmente precária que nós temos com relação a isso. Então o que é preciso fazer para que casos como esse deixem de existir? Até agora estou procurando uma resposta.
O fato é que a intolerância de um homem custou a vida de um jovem, situação que poderá se repetir, já que brigas de trânsito acontecem a todo momento e, se em uma dessas aparecer uma arma, dificilmente ela não será utilizada.

Ps.:A mãe do rapaz havia sonhado com um acidente envolvendo o filho e pediu para que ele não saísse de casa, o pedido foi primeiramente atendido, porém, o jovem não resistiu ao convite dos amigos de ir para a festa de uma amiga e, ao voltar para casa, aconteceu o incidente.

Para ver a matéria: http://www.atarde.com.br/brasil/noticia.jsf?id=888565

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Boa Pergunta...

Um belo dia, meu professor me fez pensar sobre o que é ser jornalista. Eu, como estudante de jornalismo fiquei me questionando sobre o que eu deveria responder: O que eu sou? O que vou ser? Ou o que eu tenho que ser?
A partir dessa reflexão, preferi me concentrar na última pergunta e, dessa forma, formulei um conceito sólido que subdivide o jornalismo em dois elementos: O jornalismo preguiçoso, no qual atuam jornalistas preguiçosos (bem óbvia essa observação) e o jornalismo “sério”, no qual atuam jornalistas interessados em transmitir uma informação construtiva.
O jornalista preguiçoso não lê, não pesquisa, desenvolve questões apenas com o intuito de polemizar, sem um embasamento teórico. Esse é o tipo de jornalista que eu não pretendo ser (diga-se de passagem).
Por outro lado, encontramos o jornalista intitulado por mim como “sério”, que observa um fato, “vasculha”, pesquisa, lê muito, e, sem discriminação, está aberto a todas as possibilidades, chegando assim a uma notícia de qualidade.Esse tipo de jornalista “sério” me faz lembrar a raposa-vermelha, que procura a sua presa, percebe a sua presença e não desiste até conseguir “consumi-la”. Sendo que, versátil como é, a raposa não discrimina, ela sempre está aberta sabores diferentes, digamos assim. No seu cardápio, podemos encontrar lagartos, cobras, ratos, ovelhas, aves e até frutas. Assim deve ser o jornalista, livre de preconceitos e capaz de realizar suas tarefas com imparcialidade e competência.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Inimigos sim...aliados também

A quem acha que os nossos inimigos são “pedras no nosso caminho”, faço uma oposição: nossos inimigos são nossos maiores aliados.
Em uma situação de dificuldade, é comum ouvirmos dos nossos amigos que somos bons, que temos capacidade. Mas isso nem sempre funciona. Pode ocorrer de eles usarem palavras que parecem certas no momento. Contudo, no fundo sabemos que eles estão apenas querendo nos animar, nos fazer voltar a ter fé na vida ou em algum sonho que parece impossível.
Já os nossos inimigos não. Eles sim, mexem com nossos instintos e nos fazem querer superar os limites. É para eles que queremos nos mostrar inteligentes, superiores, invencíveis. São eles que nos fazem dar o melhor que há em nós para alcançarmos êxito em algo. São eles que põem à prova o nosso domínio próprio, nossa capacidade de raciocínio e de reagir em um momento desastroso.
Nossos inimigos nos deixam “despidos”, nos mostram nossos pontos fracos e nos obrigam a descobrirmos os fortes para que assim nos cubramos de ousadia e coragem. Eles são nossos maiores incentivadores. Criam em nós um desejo cada vez maior de vitória, de sucesso, e com isso nos levam a usar todas as armas possíveis, principalmente as armas da inteligência.
Gratos devemos ser a esses seres que nos tiram do sério, que nos fazem sentir ódio, pois eles são os maiores responsáveis pelo nosso desenvolvimento, tanto como pessoas quanto como seres pensantes. É o prazer do desafio, do novo, de no final triunfarmos sobre eles, que nos motiva a aprender e descobrir mais, para que estejamos sempre preparados para um embate.
Inimigos. Combustível da nossa capacidade criativa. Com seus questionamentos e tentativas de nos ver em “saias justas”, nos obrigam a questionarmos mais sobre os fatos, sobre nossas próprias idéias. Sem querer, enriquecem nossa visão de mundo e até o nosso vocabulário. Afinal, quem nunca passou horas a fio formulando uma resposta, buscando palavras “difíceis” no dicionário, para fazer frente a um inimigo e vê-lo totalmente desconsertado?
O que desejamos de fato é que essas pessoas que não nos dão crédito passem a nos admirar, que entendam que “nós somos”, que “nós podemos”. Desejamos ouvir, não dos nossos amigos, mas daquela pessoa, aquela que vive nos inferiorizando com gestos, palavras e atitudes, que realizamos bem uma tarefa. Por isso essa busca pelo perfeccionismo cada vez maior que eles fazem surgir em nós. Por isso, o desejo de fazermos tudo sem erros, sem faltas, o que acaba extraindo de nós o que há de melhor.
A dúvida, a descrença na nossa capacidade, é o que nos encoraja a provar para nós mesmos, e principalmente para os outros, que podemos conseguir tudo que queremos, desde que lutemos e usemos bem o nosso intelecto. E essa luta quem cria são nossos benditos inimigos, sempre dispostos a nos ofender, nos fazer querer “dar o troco”, nos encorajar para os desafios, atiçar nossos instintos e, sem querer, nos preparar para a vida, para as dificuldades, para o “impossível”.
Aos nossos inimigos, vida e saúde, para que aplaudam de pé a nossa vitória.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Política ou politicagem?


“Novos documentos da polícia federal mostram que o governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho, teria recebido R$ 150 mil de Zuleido Veas e confirmam a participação do governador Jackson Lago (MA) no esquema descoberto pela operação navalha.” (Revista Isto é, março de 2008).

Seria isso política ou politicagem?

A política que está presente no senso comum gera um bloqueio, um preconceito, nas pessoas devido à desumanidade que, por um fator histórico, foi vinculada a ela.

Negligências cometidas por indivíduos que deveriam levar o país ao progresso e nos quais foi depositada a esperança de uma nação, (mas que retribuem da pior forma possível) fazem com que ao se pronunciar a palavra política a primeira lembrança que vem à mente seja a da corrupção.

É melhor que a pergunta feita no início do texto seja logo respondida a fim de que ela não cause maiores dúvidas. Politicagem. Certamente, politicagem. Essa relação de covardia feita por quem tem o poder do estado é denominada por politicagem.

Desconstruiremos agora a imagem equivocada que se tem da política. Esta, na sua verdadeira essência, faz parte da conduta humana, das relações de mando e obediência e pode está presente em qualquer circunstância. Estamos falando da relação entre pais-filhos, professor-aluno, homem-mulher, irmãos... Onde houver a pluralidade há política. Vale ressaltar que o homem não nasce um ser político. A política “surge” de fora para dentro, ou seja, o individuo desenvolve-a a partir da cultura em que está inserido.

sábado, 26 de abril de 2008

Governo dengoso

Para iniciar a minha participação no "ElLu" vou comentar sobre um assunto que realmente me preocupa. Hoje, logo que vi a página inicial do jornal A Tarde, me deparei com uma notícia que eu já esperava ver, mas que mesmo assim me causou medo. "A dengue avança", assim estava lá. Pois é, mais um caso de dengue hemorrágica permeia a população baiana. 93 casos de morte por dengue (até o dia 24/04/2008) no Rio de Janeiro não foram suficientes para alertar às autoridades de que também poderia acontecer conosco.No dia 24/04/2008 o secretário de saúde de Salvador convocou a imprensa para afirmar que não existe "epidemia". Mesmo com os 208 casos de dengue até o dia 18 de abril, sendo 22 destes considerados como grave...não, não corremos risco de epidemia.
O engraçado é que, por ser considerada uma doença "democrática" (que pode alcançar qualquer classe social), chegamos a imaginar que as "autoridades" dariam maior importância, até porque, supostamente, ela poderia atingi-las. Entretando, existe um parêntese nessa história. Onde ocorre a maior incidência dos casos de dengue?? Nos bairros pobres, carentes de saneamento básico (um problema do governo). Ok...agora já eliminamos uma grande probabilidade de algum deles adquirirem a tão falada dengue, portanto, por que previnir?

Ps.: Adoraria continuar com esse clima de poesia proposto por minha amiga Anita - ela é ótima nisso - mas devo lembrar que esse blog é livre e discutiremos nele temas diversos, o que é muito bom, já que eu sou péssima com poemas!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Quem sabe uma vida mais vivida

Cansei de falar de flores,
Cansei de falar do amor.

Já não me interessa falar

Do que traz sossego,

Do que é quase unanimemente belo

E aquieta o coração.

Eu quero incomodar espíritos,

Desassossegar almas,

Indagar mentes.

Quero falar do que dói,

Do que ofende,

Do que tira a razão.

Quero falar do sonho frustrado,

Da dor de dente,

Dos problemas da mente,

E mais ainda do desamor.

Quero acabar com a paz de espírito,

Desritmar o ritmo,

Narrar tristezas e dor.

Quero falar da vida,

Da parte dela que é omitida

Por risos falsos e hipocrisia;

Quero falar de derrotas,

De saídas sem portas,

Da incômoda ironia.

Preciso encontrar um paradoxo,

Perder a noção e falar coisas sem sentido;

Preciso ganhar o medo,

E sem receio

Me arriscar no desconhecido.

Quero sentir falta de nada,

Ausência de mim mesma

E perdas do que não tive;

Quero descobrir mentiras,

Me sentir só,

Me sentir triste.

Quero experimentar novos sabores,

Inventar novas cores

E fugir da rotina;

Quero me arrepender, me frustrar,

Me sentir mulher, me sentir menina.

Quero doce, quero amargo,

Quero mel, cruz e fel;

Quero sonho, quero pesadelo;

Quero certeza, quero receio.

Quero a vida, tal e qual ela é,

De cabo a rabo,

Lado A e B.

Mãos amigas

Na foto eu olho cada face, me ligo a cada detalhe e não consigo parar de olhar. E me vem aquela saudade, aquela velha vontade de todas essas faces reencontrar. Eu vejo vários pares de mãos, que um dia unidas, andaram juntas comigo. Eu enxergo meus irmãos, que a vida chama de meus amigos. Penetro olhares que muito me viram, que me decifravam e sempre sabiam o que se passava dentro de mim. Então eu me interrogo, não me conformo: por que a vida é assim? Estou despedaçada! Tento juntar os cacos, mas aquelas mãos amigas já não estão ao meu alcance para me ajudar. Sinto seus olhares conhecidos agora tão distantes, sem hoje poderem me olhar. Recordo o som de suas vozes, que destinos algozes ousaram me roubar. Mas ainda as sinto em posse, pois não há quem se conforme, se amigos não puder escutar. Me lembro de cada conselho, que a seu modo cada um sabia me dar. Tanto! Tanto eu me incomodo por já não podê-los apreciar. Me vem em mente meus erros, minhas falhas, que com paciência ou sem ela, não deixaram de ser apontados por suas mãos amigas. E me vem aquela falta dos nossos risos, nossas brigas. Amores de intrigas! Era tão bom dormir e saber que no outro dia iríamos trocar nossos olhares confidentes, rir dos outros, da vida, de nós mesmos e até do que não tivesse graça. Se bem que com vocês, tudo era alegria, tudo ganhava um significado tão especial, que só hoje posso entender. Eu estava tão habituada a tudo isso, que só a distância me fez perceber. E eu guardo na memória tantas coisas! Rio ao lembrar dos nossos papos no quiosque do colégio, da comida compartilhada na hora do almoço. Marmiteiros! Mas era tudo tão bom. Minhas tardes eram tão deliciosas quando passadas junto a vocês. Quer motivo melhor que esse para ir ao colégio? Aprender e redescobrir ao lado de quem a gente ama é sempre mais prazeroso. Ah! Como não lembrar da nossa união na hora das provas, dos bilhetes que voavam, das vozes que sussurravam e dos lembretes que se ocultavam. Parceria! Meu corpo ainda guarda o delicioso peso dos montinhos nos dias de aniversário. Sempre foi tudo tão bom... Então choro pelas vezes que deixei de dizer que os amava, que vocês sempre foram parte de mim. Choro porque tenho medo de nunca mais sentir o calor de suas mãos amigas, porque não sei viver sozinha e a solidão que mais me dói é a ausência de vocês. Eu pensei que eu era forte, que agüentava até a morte, mas a danada me veio em vida. Descobri que eu sou fraca, pois minha força estava em suas mãos amigas.

Eta!!Era pra hoje!!


Ontem eu pensei em dormir mais cedo,
Mas a insônia não me permitiu,
E quando o sono veio,
O ontem morreu e partiu.

Já é hoje!

Quando penso que deixei tantas coisas por acabar,
Tantos projetos incompletos,
Tantos caminhos incertos
Que eu não ousei trilhar.

Me dá um desconto, tempo!
Não posso correr tanto.
Um dia eu me emendo
E acabo com o “por enquanto”.

Calma! Eu sei que já é hoje!
Mas por que não fazemos tudo mais devagar?
O que? Por que não pode me esperar?

Ontem... hoje

Tenho algo pra fazer, mas não lembro.
Teimo sempre em esquecer e
Com freqüência me lamento.
Me falta fôlego pra correr e por isso
Me falta tempo.
Mas eu hei de aprender.
Ah! Se eu aprendo!

Entretanto...
Caramba! Era pra ontem
E eu não tenho nem pra hoje!
Amanhã... É.... Quem sabe amanhã?
Mas amanhã vai ser hoje
E hoje vai ser ontem.
E se não der tempo?
Agora mesmo foi esse instante
E num breve relance virou passado.
O presente chegou ofegante,
Impaciente, apressado.


E não é que não deu tempo?

Poxa!
Se eu tivesse tido só mais um minuto.
Que coisa!
O tempo quer mandar em tudo.
Mas eu não me conformo,
Eu esperneio, faço vida, faço luto.
Agora vou me permitir,
Vou mais além
E esquecer a cronologia.
Vou misturar sol e lua,
Ontem e hoje,
Noite e dia.