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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Escola filantrópica incentiva o estudo em horário integral


Acordar todos os dias bem cedinho e ir para a escola de segunda à sexta é uma rotina comum a qualquer estudante do ensino médio, da mesma forma acontece com os alunos do Colégio Técnico da Fundação José Carvalho, CTFJC, situada em Pojuca. O que diferencia-os dos outros está no decorrer do dia, quando, ao invés de irem para casa, eles continuam com suas atividades dentro da escola.
As aulas pela manhã começam às 07h40min e terminam às 12h45min, os alunos almoçam e às 14hrs o turno da tarde começa. Cada professor possui uma sala para que os alunos possam tirar dúvidas da disciplina, a biblioteca também continua disponível para estudos nesse turno. Fica a critério de cada um decidir se precisa ou não alongar o seu período na escola para estudar, independente disso, todos os dias esse apoio é oferecido a eles. Porém, quando se trata das aulas de reposição, ou aula das disciplinas Educação Física e Informática, que são realizadas à tarde, os estudantes têm a obrigação de participar.
“Normalmente, fico no colégio três ou quatro dias na semana, sendo que dois dias são obrigatórios.” Afirma Victória Cedraz, aluna do 2° ano. Para Luciane Almeida, hoje estudante de Jornalismo, ao mesmo tempo que era algo cansativo e estressante, ficar na escola pela tarde, era também prazeroso, pois o almoço em família, que já não existia, passou a ser compartilhado com os amigos.
Além da estrutura montada para os estudos, o CTFJC, também está equipado com quadra poliesportiva, piscina, campo de futebol, salão de jogos, pista de atletismo e uma paisagem belíssima que estimulam a vontade de estar na escola, mesmo que, para ter acesso a esses lugares, seja preciso o acompanhamento de um professor. “Há alguns meses comecei a praticar Tiro esportivo, na categoria Damas, por incentivo do meu professor de Educação Física, Jorge Cajazeira. Ganhei o bronze no campeonato baiano.” Afirma Victória Cedraz.
Ao ser questionado a respeito das vantagens que o estudo em horário integral proporciona Jorge Ubiratã, professor de História do colégio, afirma que com esses moldes há um maior aprofundamento das discussões sobre as disciplinas, oportunidade de desenvolvimento de Projetos interdisciplinares, melhor integração entre os professores, funcionários e alunos, aproximação maior entre corpo docente e discente, além da eliminação de dúvidas pendentes. Para ele há, sem dúvida, uma melhoria significativa no rendimento, no entanto, ela depende da disposição do aluno em comparecer às tardes e acompanhar as atividades que a escola proporciona no turno oposto.
O CTFJC foi fundado em 1975 na cidade de Pojuca, pelo engenheiro José Carvalho, dono Cia de Ferro Ligas da Bahia, FERBASA, que cresceu profissionalmente devido a bolsas de estudos que recebeu durante a juventude. Para ingressar nessa escola os alunos precisam fazer um teste de seleção e, caso perca em algum ano, tem que sair da instituição.



domingo, 14 de setembro de 2008

Show de vizinha

“Trabalhador é baleado e morto em tiroteio”, “Estudante é estuprada em universidade”. Eu vou vendo o noticiário e ficando estarrecida. Não que a violência seja novidade para mim. Sei bem que o Brasil é campeão nisso e que a nossa cidade (agora também é minha) vive um dos momentos mais violentos. Arrastão, tiroteio, seqüestro relâmpago, estupro. Parece que isso tudo virou coisa muito normal por aqui (ou será que sempre foi?). Aqui. É isso que me deixa maluca! Não é só em São Paulo, no Rio ou em qualquer outro lugar distante, é aqui, onde eu vivo agora. Vinda de uma cidade do interior (ai, que saudade da paz – comparada a Salvador – de minha Catu), cresci num lugar onde crimes de assassinatos e estupros não eram tão comuns. E como eu posso não sentir medo se, enquanto vejo o jornal na TV, escuto o apresentador dizer que o pai de três filhos, que voltava do trabalho, foi vítima de uma bala perdida e morto num lugar tão próximo a mim? Logo ali, no outro bairro, logo ali, no mercado onde eu faço compras, logo ali, na esquina. Logo ali, logo aqui. Ai, esse aqui me incomoda tanto! Sempre me senti segura ao andar pelas ruas da cidade de onde vim, mas agora penso duas vezes até mesmo para ir comprar o pão. Quando eu poderia imaginar, se não fosse em uma caçada jornalística e ganhando para isso, que eu poderia ficar bem no meio de um tiroteio? Quando eu poderia imaginar que ia morar num condomínio de onde saem as drogas de todo o bairro? Assusta. Apavora. A pessoa fica mesmo apreensiva ao sair para pegar um ônibus, desconfia da outra que corre apressada para não perdê-lo e até ensaia reações no caso de ser vítima de um assalto – como se isso adiantasse. Ela pede com mais veemência pela segurança da irmã que está indo para a faculdade, pela própria segurança. E ainda escuta uma amiga falar que já foi assaltada umas três vezes (no meu caso essa amiga é a Elis, minha companheira aqui do blog). “Meu Deus, e se fosse comigo?”. Não sei como reagiria a algo do tipo. Certa vez, um menino roubou o colar de uma amiga minha e eu corri em disparada atrás dele (de vestido, salto alto e tudo). Caímos em plena encruzilhada. Bem, eu não tive nada de heroína ao fazer isso. Na mesma semana, vi passar na TV que um turista havia sido atropelado e morto ao fazer a mesma coisa que eu. Então não, eu não saberia como reagir. Choraria? Gritaria? Prefiro não ser assaltada para descobrir. Além de mais grossa e menos solidária, porque já não abro a porta para quem vem pedir ajuda, me tornei uma medrosa de primeira. Tranco as portas, as janelas, a minha “cara”, e fico da varanda observando o show de vizinha que fui arrumar. Eu, hein, queria mesmo era me mudar daqui!

terça-feira, 10 de junho de 2008

Apartamento 102

Esse foi um ensaio realizado para a disciplina de Oficina de Leitura e Escrita II. Nele eu conto como aconteceu um acidente sofrido por minha irmã e as suas consequências.

Minha vista estava embaçada, meus olhos custaram a se abrir. Em minhas mãos, um objeto que há quase duas semanas havia se tornado íntimo meu e que refletia minha imagem distorcidamente, transformando-me num ponto borrado que oscilava para frente e para trás, num vaivém de sono e cansaço. Seu peso, que devia ser não mais que dois quilos, nesse momento pareceu-me ter 20, e o contato das minhas mãos com ele era tão frio, que um rápido arrepio chegou a percorrer-me o corpo. Três horas da manhã e lá ia eu mais uma vez, a quarta apenas nessa madrugada, se não me engano, armada com uma aparadeira (objeto com um lado redondo e o outro mais estreito, utilizado nos hospitais para aparar a urina dos pacientes; geralmente é feito de material metálico), com os cabelos totalmente desalinhados e uma cara realmente assustadora, me arrastando por um quarto de hospital. Não, eu não estava doente. Na verdade, estava passando por um estágio forçado de enfermagem. Há onze dias atrás, minha irmã havia sofrido um acidente (uma história ao mesmo tempo cômica e triste, pelos estragos que causou, que vai ser contada mais adiante) e não podia nem mesmo andar. Como ela estava tomando muito soro, a urina era o único jeito para eliminá-lo e ela fazia isso de pelo menos 20 em 20 minutos. Eu, como sua acompanhante, tive que me encarregar de não dormir e atender ao seu “Quero fazer xixi”, a qualquer hora que fosse. Na verdade o meu turno era o da tarde, mas minha mãe precisou se deslocar para uma cidade próxima e eu tive que ficar essa noite no seu lugar. E que noite. Se eu dormi? Não, não consegui. Mas pelo menos pude parar para lembrar, num intervalo de uma urina e outra, o que tinha me levado até ali.

...

“Anne, ladrão!”. Foi só o que eu ouvi antes de ver a minha irmã entrar desesperada no quarto onde eu estava, bater a porta com força e pular da janela. “Pára!”, “Cuidado!”, “Não faça isso!”. Eu não tive pulso na hora, tamanha a rapidez da situação e o próprio medo que ela me fez sentir com o seu desespero. A minha reação foi pular também da janela, com um pouco mais de cautela – ganhei apenas mais um arranhão no joelho –, olhar como ela estava e sair que nem doida pelo prédio, gritando por socorro. Na verdade eu pulei na intenção de levantá-la do chão e depois sairmos correndo, mas quando vi que tinha sido grave, resolvi pedir ajuda. Branca, com os lábios cinza (claro que eu não me vi na hora, me disseram que era assim que eu estava), olhei para cima e avistei os “ladrões perigosos”: minha mãe e um de meus tios, que vieram nos fazer uma visita surpresa. Não sei o que deu na minha irmã naquela hora para fazer algo do tipo, eram só quatro da tarde e o único barulho “ameaçador” que ela ouviu foi o de uma chave dentro da fechadura. Só fiquei imaginando se foi sorte ou azar morarmos justamente no primeiro andar. Prefiro nem pensar no que poderia ter acontecido se morássemos no quinto, por exemplo, se ela teria a mesma coragem, ou o mesmo medo, porque foi por puro terror que ela pulou.
Como era de se esperar, não demorou para o lugar ficar cheio de gente, que se juntava querendo saber o que tinha acontecido – eu nem sabia que tinha tantos vizinhos – e soltar as frases nada apropriadas no momento: “Meu Deus, por que ela fez isso?”, “Imagina se é do décimo!”. E eu desesperada, tentando consolar a minha mãe, que estava se sentindo culpada, uma Nardoni, como ela mesma disse. Na época estava passando na televisão – constantemente, diga-se de passagem - o caso de uma menina que supostamente havia sido jogada do sexto andar pelo pai, Alexandre Nardoni. Obviamente, o caso de minha irmã nada tinha de semelhante a esse, fora a existência de uma janela, mas mãe é mãe e sempre tem a mania de pegar a culpa para si. “Meu Deus, eu quase mato as minhas duas filhas”. Eu não sabia se ria ou chorava de pena dela. Um abraço e um “deixa de bobagem, mãe”, foi só o que eu soube lhe oferecer. Mas pior que tentar consolá-la, foi provar para mim mesma que eu não tive culpa da queda da minha irmã. Porque sim, eu fiquei pensando que na hora da agonia poderia tê-la empurrado para pular logo em seguida e fugir dos “ladrões”, ou simplesmente me esbarrado sem querer. Culpa, ela disse que eu não tive, que se lembrava muito bem de ter pulado sozinha. Mas, independente disso, eu ainda não consegui esquecer a cena dela caindo, seu corpo batendo desajeitado no chão. Foi horrível!
Por sorte, o SAMU chegou quinze minutos após ser acionado e ela foi logo encaminhada para o hospital. Eu pensei que o atendimento seria imediato, que ela enfaixaria os pés e seria liberada logo em seguida. Me enganei. Aquilo ali estava pior que hospital público. Era gente sendo atendida no meio do corredor, umas tantas pessoas esperando sentadas e minha irmã deitada numa maca, também no meio do corredor de emergência. Vez ou outra, ela entrava numa sala para fazer raios x, que eu também fiz, já que também havia pulado da janela. Quando voltava, fazia um escândalo, gritava, pedia para ser medicada e eu sem ter onde colocar a cara de tanta vergonha. Eu até compreendi que a dor deveria estar sendo realmente insuportável, afinal ela estava com os dois pés quebrados, mas confesso que percebi um certo drama na sua cena. Conheço bem a minha irmã e sei o quanto ela é dengosa. Mas isso não vem ao caso. Naquele momento, tudo era válido, pelo menos assim poderiam ficar compadecidos e atendê-la logo. Como tinha trabalho da faculdade, não pude esperar para ver o resultado e voltei para casa. No dia seguinte, comentei com algumas pessoas o que havia acontecido e elas riram, o que eu aceitei passivamente, afinal a história tinha um certo fundo de humor: uma menina de vinte anos se joga desesperadamente da janela, em plena tarde, porque pensou que um ladrão estava invadindo sua casa. E o mais curioso: o ladrão tinha a chave. Confesso que me peguei rindo algumas vezes, contra minha vontade. Mas não achei graça nenhuma quando fui visitá-la no hospital e soube do resultado dos exames: fratura do calcânio (osso do calcanhar) e fratura exposta do pulso esquerdo. Quando entrei no quarto, a vi com as pernas enfaixadas, o braço esquerdo engessado e uma cara de dar dó. Acho que nunca senti amar tanto a minha irmã. E os dezesseis dias passados no hospital me fizeram comprovar isso.
Quando eu poderia imaginar que um dia estaria num leito de hospital, cuidando de minha irmã ainda jovem e agredindo minhas manias de limpeza? Porque eu sou uma pessoa extremamente chata, que acha que qualquer coisa pode estar infectada e que tem nojo de tudo. Entretanto, me vi durantes dias cuidando de minha irmã, pegando sua urina, lavando suas partes íntimas e passando tardes e tardes num hospital, o tipo de lugar mais nojento que existe - sempre lavando as mãos de minuto em minuto, era mais forte do que eu. Mas, para minha própria surpresa, minhas manias e eu eram o de menos naquele momento. Eu só queria saber de minha irmã. E minha vida passou então a resumir-se a faculdade pela manhã, hospital durante a tarde e casa durante a noite. Minha irmã recebia visita a todo instante, mas estar perto nessas horas faz sempre a gente acreditar que tudo pode ficar melhor. E era assim que eu pensava. Como era triste chegar ao hospital e encontrá-la deprimida, se sentindo uma inútil, como ela sempre falava , ver o rosto abatido de minha mãe e em casa presenciá-la chorando todos os dias. E eu também sentia uma enorme vontade de chorar, mas não podia, porque sabia que isso acabaria fragilizando ainda mais as duas. Procurava sempre esboçar um sorriso amarelo, falar alguma palavra de ânimo – embora a maioria delas não convencesse nem a mim mesma -, ou simplesmente fazer companhia, que nesse tipo de situação é importantíssima. Acho que esses foram os dezesseis dias mais arrastados da minha vida. Por fora eu tentava aparentar estar como sempre, mas por dentro estava um caco, sensível, triste.
Desde o segundo semestre do ano passado, eu e minha irmã – Keu, é esse o seu nome - nos mudamos do interior para Salvador, para que pudéssemos fazer faculdade. Nossos pais e irmão continuaram em Catu, a cidade onde crescemos, e então nós moramos sozinhas. Sempre brincamos de uma assustar a outra, fazendo um barulho, fingindo que vinha alguém, mas depois desse dia, resolvemos nunca mais brincar assim. Com o acidente, eu acabei ficando sozinha durante o tempo que ela estava no hospital. Tinha medo vez ou outra, ia logo ver se tinha alguém em casa quando escutava um barulho, mas difícil mesmo estava sendo ficar sem ela. Eu sempre gostei de ficar sozinha no meu canto, tratando de entender minhas próprias idéias, mas já estava enjoada de mim mesma. Minha irmã fazia uma falta imensa, não havia um dia sequer em que eu não pensasse nela e até quem me via no ponto de ônibus percebia que eu estava triste. Desde o dia 16 de abril - se não me engano-, as vezes em que eu ficava realmente feliz eram quando ia vê-la no hospital , até mesmo quando tinha que castigar minha escoliose e carregá-la no colo para tomar banho ou fazer qualquer outra coisa. Ficava pensando que a necessidade faz realmente a especialidade. Eu, uma pessoa que não tem o mínimo dom e muito menos paciência para cuidar de alguém, tive que aprender a fazer isso, ouvir sem reclamar as frases mal-humoradas de minha irmã e, o mais importante, entender que ser sozinho não é nada bom. Descobri de uma maneira muito triste como devemos dar valor às pessoas, pois em um simples instante elas já podem não estar ao nosso lado. E que os irmãos são sim importantes para nós, por mais que muitas vezes neguemos isso. Porém, o difícil de tudo aquilo não era estar aprendendo essa lição, que na verdade me acrescentou muito, mas ter que fingir para os outros e para mim mesma - sou muito cabeça dura e desconfiada e não me sinto à vontade para falar dos meus problemas com ninguém - que estava tudo bem. Afinal, talvez até estivesse. No fundo eu nunca me senti verdadeiramente feliz. Acho que apenas havia encontrado um bom motivo para chorar e afogar as mágoas. Mas naquele momento eu estava sem tempo para pensar nisso. Mais uma vez, minha irmã me chamou : “Anne, quero fazer xixi”.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Boa Pergunta...

Um belo dia, meu professor me fez pensar sobre o que é ser jornalista. Eu, como estudante de jornalismo fiquei me questionando sobre o que eu deveria responder: O que eu sou? O que vou ser? Ou o que eu tenho que ser?
A partir dessa reflexão, preferi me concentrar na última pergunta e, dessa forma, formulei um conceito sólido que subdivide o jornalismo em dois elementos: O jornalismo preguiçoso, no qual atuam jornalistas preguiçosos (bem óbvia essa observação) e o jornalismo “sério”, no qual atuam jornalistas interessados em transmitir uma informação construtiva.
O jornalista preguiçoso não lê, não pesquisa, desenvolve questões apenas com o intuito de polemizar, sem um embasamento teórico. Esse é o tipo de jornalista que eu não pretendo ser (diga-se de passagem).
Por outro lado, encontramos o jornalista intitulado por mim como “sério”, que observa um fato, “vasculha”, pesquisa, lê muito, e, sem discriminação, está aberto a todas as possibilidades, chegando assim a uma notícia de qualidade.Esse tipo de jornalista “sério” me faz lembrar a raposa-vermelha, que procura a sua presa, percebe a sua presença e não desiste até conseguir “consumi-la”. Sendo que, versátil como é, a raposa não discrimina, ela sempre está aberta sabores diferentes, digamos assim. No seu cardápio, podemos encontrar lagartos, cobras, ratos, ovelhas, aves e até frutas. Assim deve ser o jornalista, livre de preconceitos e capaz de realizar suas tarefas com imparcialidade e competência.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Inimigos sim...aliados também

A quem acha que os nossos inimigos são “pedras no nosso caminho”, faço uma oposição: nossos inimigos são nossos maiores aliados.
Em uma situação de dificuldade, é comum ouvirmos dos nossos amigos que somos bons, que temos capacidade. Mas isso nem sempre funciona. Pode ocorrer de eles usarem palavras que parecem certas no momento. Contudo, no fundo sabemos que eles estão apenas querendo nos animar, nos fazer voltar a ter fé na vida ou em algum sonho que parece impossível.
Já os nossos inimigos não. Eles sim, mexem com nossos instintos e nos fazem querer superar os limites. É para eles que queremos nos mostrar inteligentes, superiores, invencíveis. São eles que nos fazem dar o melhor que há em nós para alcançarmos êxito em algo. São eles que põem à prova o nosso domínio próprio, nossa capacidade de raciocínio e de reagir em um momento desastroso.
Nossos inimigos nos deixam “despidos”, nos mostram nossos pontos fracos e nos obrigam a descobrirmos os fortes para que assim nos cubramos de ousadia e coragem. Eles são nossos maiores incentivadores. Criam em nós um desejo cada vez maior de vitória, de sucesso, e com isso nos levam a usar todas as armas possíveis, principalmente as armas da inteligência.
Gratos devemos ser a esses seres que nos tiram do sério, que nos fazem sentir ódio, pois eles são os maiores responsáveis pelo nosso desenvolvimento, tanto como pessoas quanto como seres pensantes. É o prazer do desafio, do novo, de no final triunfarmos sobre eles, que nos motiva a aprender e descobrir mais, para que estejamos sempre preparados para um embate.
Inimigos. Combustível da nossa capacidade criativa. Com seus questionamentos e tentativas de nos ver em “saias justas”, nos obrigam a questionarmos mais sobre os fatos, sobre nossas próprias idéias. Sem querer, enriquecem nossa visão de mundo e até o nosso vocabulário. Afinal, quem nunca passou horas a fio formulando uma resposta, buscando palavras “difíceis” no dicionário, para fazer frente a um inimigo e vê-lo totalmente desconsertado?
O que desejamos de fato é que essas pessoas que não nos dão crédito passem a nos admirar, que entendam que “nós somos”, que “nós podemos”. Desejamos ouvir, não dos nossos amigos, mas daquela pessoa, aquela que vive nos inferiorizando com gestos, palavras e atitudes, que realizamos bem uma tarefa. Por isso essa busca pelo perfeccionismo cada vez maior que eles fazem surgir em nós. Por isso, o desejo de fazermos tudo sem erros, sem faltas, o que acaba extraindo de nós o que há de melhor.
A dúvida, a descrença na nossa capacidade, é o que nos encoraja a provar para nós mesmos, e principalmente para os outros, que podemos conseguir tudo que queremos, desde que lutemos e usemos bem o nosso intelecto. E essa luta quem cria são nossos benditos inimigos, sempre dispostos a nos ofender, nos fazer querer “dar o troco”, nos encorajar para os desafios, atiçar nossos instintos e, sem querer, nos preparar para a vida, para as dificuldades, para o “impossível”.
Aos nossos inimigos, vida e saúde, para que aplaudam de pé a nossa vitória.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Quem sabe uma vida mais vivida

Cansei de falar de flores,
Cansei de falar do amor.

Já não me interessa falar

Do que traz sossego,

Do que é quase unanimemente belo

E aquieta o coração.

Eu quero incomodar espíritos,

Desassossegar almas,

Indagar mentes.

Quero falar do que dói,

Do que ofende,

Do que tira a razão.

Quero falar do sonho frustrado,

Da dor de dente,

Dos problemas da mente,

E mais ainda do desamor.

Quero acabar com a paz de espírito,

Desritmar o ritmo,

Narrar tristezas e dor.

Quero falar da vida,

Da parte dela que é omitida

Por risos falsos e hipocrisia;

Quero falar de derrotas,

De saídas sem portas,

Da incômoda ironia.

Preciso encontrar um paradoxo,

Perder a noção e falar coisas sem sentido;

Preciso ganhar o medo,

E sem receio

Me arriscar no desconhecido.

Quero sentir falta de nada,

Ausência de mim mesma

E perdas do que não tive;

Quero descobrir mentiras,

Me sentir só,

Me sentir triste.

Quero experimentar novos sabores,

Inventar novas cores

E fugir da rotina;

Quero me arrepender, me frustrar,

Me sentir mulher, me sentir menina.

Quero doce, quero amargo,

Quero mel, cruz e fel;

Quero sonho, quero pesadelo;

Quero certeza, quero receio.

Quero a vida, tal e qual ela é,

De cabo a rabo,

Lado A e B.

Mãos amigas

Na foto eu olho cada face, me ligo a cada detalhe e não consigo parar de olhar. E me vem aquela saudade, aquela velha vontade de todas essas faces reencontrar. Eu vejo vários pares de mãos, que um dia unidas, andaram juntas comigo. Eu enxergo meus irmãos, que a vida chama de meus amigos. Penetro olhares que muito me viram, que me decifravam e sempre sabiam o que se passava dentro de mim. Então eu me interrogo, não me conformo: por que a vida é assim? Estou despedaçada! Tento juntar os cacos, mas aquelas mãos amigas já não estão ao meu alcance para me ajudar. Sinto seus olhares conhecidos agora tão distantes, sem hoje poderem me olhar. Recordo o som de suas vozes, que destinos algozes ousaram me roubar. Mas ainda as sinto em posse, pois não há quem se conforme, se amigos não puder escutar. Me lembro de cada conselho, que a seu modo cada um sabia me dar. Tanto! Tanto eu me incomodo por já não podê-los apreciar. Me vem em mente meus erros, minhas falhas, que com paciência ou sem ela, não deixaram de ser apontados por suas mãos amigas. E me vem aquela falta dos nossos risos, nossas brigas. Amores de intrigas! Era tão bom dormir e saber que no outro dia iríamos trocar nossos olhares confidentes, rir dos outros, da vida, de nós mesmos e até do que não tivesse graça. Se bem que com vocês, tudo era alegria, tudo ganhava um significado tão especial, que só hoje posso entender. Eu estava tão habituada a tudo isso, que só a distância me fez perceber. E eu guardo na memória tantas coisas! Rio ao lembrar dos nossos papos no quiosque do colégio, da comida compartilhada na hora do almoço. Marmiteiros! Mas era tudo tão bom. Minhas tardes eram tão deliciosas quando passadas junto a vocês. Quer motivo melhor que esse para ir ao colégio? Aprender e redescobrir ao lado de quem a gente ama é sempre mais prazeroso. Ah! Como não lembrar da nossa união na hora das provas, dos bilhetes que voavam, das vozes que sussurravam e dos lembretes que se ocultavam. Parceria! Meu corpo ainda guarda o delicioso peso dos montinhos nos dias de aniversário. Sempre foi tudo tão bom... Então choro pelas vezes que deixei de dizer que os amava, que vocês sempre foram parte de mim. Choro porque tenho medo de nunca mais sentir o calor de suas mãos amigas, porque não sei viver sozinha e a solidão que mais me dói é a ausência de vocês. Eu pensei que eu era forte, que agüentava até a morte, mas a danada me veio em vida. Descobri que eu sou fraca, pois minha força estava em suas mãos amigas.

Eta!!Era pra hoje!!


Ontem eu pensei em dormir mais cedo,
Mas a insônia não me permitiu,
E quando o sono veio,
O ontem morreu e partiu.

Já é hoje!

Quando penso que deixei tantas coisas por acabar,
Tantos projetos incompletos,
Tantos caminhos incertos
Que eu não ousei trilhar.

Me dá um desconto, tempo!
Não posso correr tanto.
Um dia eu me emendo
E acabo com o “por enquanto”.

Calma! Eu sei que já é hoje!
Mas por que não fazemos tudo mais devagar?
O que? Por que não pode me esperar?

Ontem... hoje

Tenho algo pra fazer, mas não lembro.
Teimo sempre em esquecer e
Com freqüência me lamento.
Me falta fôlego pra correr e por isso
Me falta tempo.
Mas eu hei de aprender.
Ah! Se eu aprendo!

Entretanto...
Caramba! Era pra ontem
E eu não tenho nem pra hoje!
Amanhã... É.... Quem sabe amanhã?
Mas amanhã vai ser hoje
E hoje vai ser ontem.
E se não der tempo?
Agora mesmo foi esse instante
E num breve relance virou passado.
O presente chegou ofegante,
Impaciente, apressado.


E não é que não deu tempo?

Poxa!
Se eu tivesse tido só mais um minuto.
Que coisa!
O tempo quer mandar em tudo.
Mas eu não me conformo,
Eu esperneio, faço vida, faço luto.
Agora vou me permitir,
Vou mais além
E esquecer a cronologia.
Vou misturar sol e lua,
Ontem e hoje,
Noite e dia.